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Sobre o autor

Josemar Djundo

Economista, licenciado pela Universidade Católica de Angola (UCAN), actua no sector financeiro como técnico de Operações Bancárias desde julho de 2024. Fundador de projectos como Geração Kwanza e Kimbu Academy, plataformas dedicada à literacia económica e ao debate sobre economia, e capacitação de jovens angolanos. Tem formação técnica em Energias Renováveis, e interesse particular em programação macroeconómica e análise de projetos.

SOCIEDADE

Juventude Qualificada e Sem Rumo: Aonde a Bússola Falhou?

Josemar Djundo · 1 de maio de 2026 · 9 min de leitura

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Angola tem hoje os jovens mais qualificados da sua história e, ao mesmo tempo, uma das taxas de desemprego juvenil mais altas do continente. Uma reflexão sobre a distância entre a formação e o mercado, e sobre a crise de propósito de uma geração à espera de ser encontrada.

Há uma imagem que me persegue. A de um jovem com diploma em mãos, parado à porta de uma instituição que nunca lhe abriu de facto. Não por falta de esforço. Não por falta de inteligência. Mas por uma combinação cruel de circunstâncias que o deixou, simultaneamente, mais preparado e mais perdido do que qualquer geração angolana antes dele.

Estamos a falar de uma geração que foi à escola, que estudou, que acreditou — às vezes até ao ponto de se endividar ou de ver os pais sacrificarem tudo — e que chegou ao mercado de trabalho para encontrar não um caminho, mas um labirinto sem mapa. Angola tem hoje, paradoxalmente, os jovens mais qualificados da sua história e, ao mesmo tempo, uma das taxas de desemprego juvenil mais altas do continente africano.

Este artigo não é sobre estatísticas frias. É sobre o peso de acordar todos os dias sem saber para onde caminhar. É sobre a pergunta que Carmen Mateia, Empreendedora e uma das vozes mais lúcidas da sua geração, levantou numa conversa recente no podcast Geração Kwanza: “como é que um país forma jovens e depois não sabe o que fazer com eles?”

O paradoxo da juventude mais formada e menos direcionada

Os números do Instituto Nacional de Estatística (INE) são brutais na sua clareza. Em 2025, a taxa de desemprego jovem em Angola atingiu 51,8% — mais de metade dos jovens entre 15 e 24 anos sem emprego formal. E os desempregados têm, em média, 25,9 anos. Não são adolescentes em início de carreira. São adultos que já deveriam estar a construir as suas vidas.

Mas o paradoxo não está apenas nos números. Está na qualidade do que esses números escondem. A mesma geração que acedeu em massa ao ensino superior — seja através de universidades públicas, privadas ou de bolsas no exterior — é a que mais profundamente sente a distância entre o que aprendeu e o que o mercado lhe pede. Ou, mais exactamente, o que o mercado angolano ainda não consegue oferecer.

Formaram-se economistas, engenheiros, comunicadores, juristas. E muitos encontraram, do outro lado do diploma, o mesmo mercado informal que existia antes deles. Angola continua com 78,8% dos seus trabalhadores na economia informal. Nas zonas rurais, essa cifra chega a 95%. O diploma não é um passaporte. É, no máximo, uma promessa por cumprir.

O mercado angolano e a ausência de oportunidades reais

Parte do problema tem raízes estruturais que não se resolvem com boa vontade. A economia angolana continua excessivamente dependente do petróleo — um sector que emprega uma fracção mínima da população activa e que, por natureza, exige perfis altamente especializados e reduzida mão-de-obra. Ao mesmo tempo, os sectores que deveriam absorver os jovens qualificados — a indústria, os serviços, a tecnologia — permanecem subdesenvolvidos e sem capacidade de absorção.

A isso junta-se um fenómeno silencioso, mas devastador: a fuga de talentos. Cada vez mais jovens angolanos qualificados buscam horizontes em Portugal, no Brasil, na França ou nos países vizinhos. Não por capricho ou deslealdade à terra, mas porque a equação entre sacrifício e recompensa deixou de fechar em casa. Médicos, professores, técnicos financeiros, analistas de dados — Angola investe na sua formação e o mundo beneficia do seu trabalho.

Precisamos de juntar forças e recursos para garantir que cada jovem tem acesso a oportunidades e ao apoio de que necessita para ter sucesso no mercado de trabalho moderno.

Estas palavras de Carmen Mateia, ditas no contexto do seu trabalho com os Agitadores Culturais na Huíla, resumem o que deveria ser uma prioridade nacional. Mas entre o discurso e a política pública existe, em Angola, uma distância que os jovens sentem na pele todos os dias.

A crise de propósito e identidade da nova geração

Há algo que os dados não capturam: o vazio interior de quem não sabe qual é o seu lugar. A chamada crise de identidade profissional é, para muitos jovens angolanos, mais paralisante do que o desemprego em si. Porque o desemprego é uma condição exterior. A desorientação é uma condição interior. E esta geração enfrenta as duas em simultâneo.

Cresceram a ouvir que a educação era a chave. Estudaram. Sacrificaram. E quando chegaram à porta, descobriram que a chave existe, mas a fechadura mudou de lugar. O mercado pede experiência a quem nunca teve oportunidade de a ganhar. Pede conexões a quem não nasceu com elas. Pede resiliência a quem já está esgotado de resistir.

A pressão social amplifica tudo. Em Angola, como em muitas sociedades africanas, o jovem que não tem emprego formal não é apenas alguém sem trabalho — é alguém que 'falhou'. A família que se sacrificou para pagar os estudos olha com expectativa. Os amigos comparam trajectórias. As redes sociais mostram uma versão filtrada do sucesso alheio. E o jovem, encurralado entre o que é e o que se espera que seja, vai perdendo a bússola interior.

A saúde emocional desta geração é uma emergência silenciosa. Ansiedade, depressão e sensação de inutilidade proliferam em silêncio, numa cultura que ainda estigmatiza a vulnerabilidade emocional e onde o acesso a apoio psicológico é, para a maioria, um luxo inacessível.

Reflexões trazidas por Carmen Mateia no Geração Kwanza

Foi no scout, aos 12 anos, que Carmen Mateia descobriu a sua vocação para o associativismo e para a liderança comunitária. Aos 20, o programa YALI abriu-lhe os olhos para o verdadeiro potencial da acção colectiva. Hoje, à frente de iniciativas como os Agitadores Culturais e a Primeira Fila, ela percorre Angola e além-fronteiras com uma mensagem que é, ao mesmo tempo, simples e profunda: os jovens não precisam de esperar que o sistema os inclua — podem começar a construir os seus próprios sistemas.

No Geração Kwanza, Carmen trouxe à conversa algo que raramente se discute com esta honestidade: a diferença entre estar formado e estar preparado. A escola angolana, diz ela, ainda forma para um mercado que não existe — ou que existe de uma forma que o currículo académico não contempla. Forma para a teoria quando o mercado pede adaptabilidade. Forma para a especialização quando o empreendedorismo exige transversalidade. Forma para receber ordens quando o momento pede pessoas capazes de criar os seus próprios contextos.

Mas Carmen também recusa o pessimismo fácil. A sua trajectória — e a de tantos outros jovens angolanos que encontraram o seu caminho através da cultura, do associativismo, da economia criativa ou do empreendedorismo social — mostra que a bússola pode ser recalibrada. Não pelo Estado, não pela família, não pela escola. Mas pelo próprio jovem que decide parar de esperar permissão para começar.

O papel da sociedade, família, escola e Estado

A tentação é sempre a de apontar o dedo a um único culpado. Ao Estado que não cria empregos. À escola que não prepara. À família que pressiona. Mas a realidade é mais complexa e mais incómoda: todos participam, de alguma forma, na desorientação desta geração.

A família angolana ainda carrega, em muitos casos, uma concepção linear e rígida do sucesso: estudar, arranjar emprego formal, casar, ter filhos. Qualquer desvio desta trajectória é lido como fracasso. O jovem que escolhe o empreendedorismo enfrenta desconfiança. O que escolhe uma carreira artística ou na economia criativa enfrenta desprezo. O que simplesmente não sabe ainda o que quer — e tem a coragem de o admitir — enfrenta ansiedade partilhada por toda a família.

A escola, por seu turno, continua a ser um sistema construído para um mundo que já não existe. A educação financeira é praticamente ausente. O desenvolvimento de competências emocionais e de pensamento crítico raramente é prioritário. E a ligação entre o que se aprende e o que o mercado real precisa permanece, na maioria dos casos, uma ponte por construir.

O Estado tem um papel insubstituível — e aqui não se pode ser condescendente. Políticas públicas de emprego juvenil que não chegam à maioria, programas de capacitação que ficam no papel, falta de incentivos reais ao empreendedorismo e à formalização da economia: são falhas estruturais que nenhuma resiliência individual consegue compensar completamente. A iniciativa de Carmen Mateia e de outros empreendedores e activistas é admirável, mas não pode ser a única resposta.

Conclusão: a bússola por dentro

No final, a pergunta com que comecei — aonde a bússola falhou? — tem uma resposta desconfortável: falhou em vários lugares ao mesmo tempo. Falhou na escola que não preparou para a vida real. Falhou no mercado que não cresceu à medida dos sonhos. Falhou na família que transmitiu mapas desactualizados. Falhou no Estado que prometeu mais do que entregou. E falhou, às vezes, no próprio jovem que esperou que alguém lhe dissesse para onde ir.

Mas as bússolas também se recalibram. E é isso que torna esta geração simultaneamente trágica e fascinante: ela tem, como nenhuma outra, os instrumentos para se reinventar. Tem acesso a informação, a redes globais, a modelos de sucesso não-lineares. Tem, em figuras como Carmen Mateia, exemplos de que é possível criar o próprio caminho quando o caminho convencional se fecha.

O que esta geração precisa não é apenas de emprego. Precisa de propósito. Precisa de espaços — físicos e emocionais — onde possa errar sem ser julgada, explorar sem ser apressada, construir sem ter que pedir desculpa pela escala reduzida dos seus primeiros passos. Precisa que o país decida, de uma vez por todas, que o seu maior activo não é o petróleo nem os diamantes. São os 51,8% de jovens que estão parados, à espera de uma oportunidade que Angola ainda não teve a coragem de criar à sua medida.

Porque uma geração perdida não é uma geração falhada. É uma geração à espera de ser encontrada. E nesse encontro, a responsabilidade é de todos nós.

Dados: INE Angola — Inquérito ao Emprego 2025. Referências: entrevista de Carmen Mateia ao Geração Kwanza; Banco Mundial, 2024; UNICEF Angola, 2024.

Josemar Djundo é economista, e colaborador do Geração Kwanza.