Sobre o autor

Fânia Massua
Fânia Massua é economista e professora assistente universitária e mestranda em Economia, desempenha também função de Directora Executiva dos Cursos de Curta Duração da Católica Luanda Business School (CLBS). Ao longo do seu percurso profissional, colaborou com a revista económica O Telegrama, onde publicou mais de 50 artigos sobre temas relacionados com a economia angolana, políticas públicas, finanças, mercado de capitais e desenvolvimento económico.
Do Aforrador ao Investidor: Os Desafios da Democratização do Mercado de Capitais em Angola
Fânia Massua · 8 de setembro de 2026 · 9 min de leitura
A existência de poupança, por si só, não garante que os recursos disponíveis sejam canalizados de forma eficiente para o financiamento da economia. Entre o cidadão que consegue poupar parte do seu rendimento e aquele que participa activamente no financiamento de empresas através da aquisição de acções, obrigações ou outros instrumentos financeiros existe uma distância que o país ainda precisa de reduzir.
Em Angola, temos falta de poupança ou falta de instrumentos e conhecimento para transformar poupança em investimento?
Durante muito tempo, a discussão sobre o desenvolvimento financeiro em Angola esteve fortemente concentrada no sistema bancário. Os bancos desempenham, naturalmente, um papel fundamental na mobilização da poupança e na concessão de crédito, mas o desenvolvimento de uma economia moderna exige uma estrutura financeira mais diversificada, na qual o mercado de capitais assume uma importância crescente.
A existência de poupança, por si só, não garante que os recursos disponíveis sejam canalizados de forma eficiente para o financiamento da economia. Entre o cidadão que consegue poupar parte do seu rendimento e aquele que participa activamente no financiamento de empresas através da aquisição de acções, obrigações ou outros instrumentos financeiros existe uma distância que o país ainda precisa de reduzir.
É precisamente nesta transição que reside uma das grandes questões para o futuro do mercado de capitais angolano: como transformar o aforrador num investidor?
A questão não é meramente financeira. Trata-se também de uma questão de desenvolvimento económico, inclusão financeira e participação dos cidadãos na criação de riqueza. Um mercado de capitais verdadeiramente desenvolvido não deve ser entendido apenas como um espaço onde grandes investidores institucionais e empresas realizam operações de elevado montante. Deve ser também um mecanismo através do qual famílias e pequenos investidores possuem poder de participar, de forma informada e responsável, no financiamento da economia.
O processo de democratização do mercado de capitais angolano apresenta, por isso, uma dupla exigência: por um lado, aumentar a oferta e a diversidade de instrumentos financeiros; por outro, criar condições para que mais cidadãos compreendam, confiem e tenham acesso a esses instrumentos.
Do aforro ao investimento: uma mudança de comportamento financeiro
A distinção entre poupar e investir é fundamental para compreender o desafio. Poupar significa reservar uma parcela do rendimento presente para utilização futura. Investir, por sua vez, implica aplicar recursos em activos com a expectativa de obter um determinado retorno, assumindo também riscos.
Esta diferença parece simples, mas possui importantes implicações económicas. Uma economia na qual os agentes apenas acumulam poupança sem mecanismos eficientes para canalizar esses recursos para actividades produtivas terá maior dificuldade em transformar a poupança em crescimento económico.
O mercado de capitais desempenha precisamente essa função de intermediação. Permite que empresas e outras entidades obtenham financiamento e, simultaneamente, oferece aos investidores alternativas para aplicar as suas poupanças.
Assim, a passagem “do aforrador ao investidor” representa uma mudança de paradigma. O cidadão deixa de ser apenas alguém que procura preservar o seu dinheiro e passa a ser também um agente que participa, directa ou indirectamente, no financiamento de empresas, projectos e actividades económicas.
Esta transformação exige, contudo, conhecimento. Um investidor deve compreender a relação entre risco e retorno, conhecer os instrumentos disponíveis, avaliar a informação financeira e distinguir entre diferentes horizontes de investimento. Democratizar o mercado de capitais não significa simplesmente colocar produtos financeiros à disposição do público; significa permitir que as pessoas tenham condições para tomar decisões de investimento informadas.
O mercado de capitais angolano tem registado uma evolução importante nos últimos anos. A criação e consolidação de instituições especializadas, o desenvolvimento da BODIVA, a actuação regulatória da CMC e a entrada progressiva de empresas no mercado têm contribuído para a construção de um ecossistema financeiro mais diversificado.
Os dados mais recentes mostram que essa transformação ganhou velocidade. Segundo a BODIVA, em 2025 foram realizadas 37.156 transacções, contra 10.328 no recorde anterior, representando um crescimento de 260% no número de negócios. Particularmente relevante foi o desenvolvimento do mercado de acções, que registou 22.385 negócios.
O primeiro desafio: a literacia financeira
Um dos principais obstáculos à democratização do mercado de capitais é a literacia financeira.
É difícil esperar que uma pessoa invista em obrigações, acções ou fundos de investimento se não compreender conceitos básicos como risco, retorno, liquidez, diversificação, maturidade ou volatilidade.
Por essa razão, a educação financeira deve ser entendida como uma infraestrutura essencial do mercado. A própria CMC identifica a promoção da educação financeira e a protecção dos investidores entre os seus compromissos institucionais.
Contudo, a educação financeira não deve limitar-se a campanhas ocasionais. Deve começar nas escolas, continuar nas universidades e estar presente nos bancos, nas plataformas digitais, nos meios de comunicação social e nas próprias instituições do mercado.
Mais do que ensinar o cidadão a “comprar acções”, é necessário ensiná-lo a tomar decisões financeiras. Um investidor informado deve saber que não existe retorno elevado sem risco correspondente, que rentabilidade passada não garante rentabilidade futura e que diversificar é uma das formas fundamentais de gerir o risco.
O segundo desafio: confiança e protecção do investidor
Nenhum mercado de capitais consegue desenvolver-se de forma sustentável sem confiança. (Very important)
O investidor precisa de acreditar que dispõe de informação adequada, que existem regras claras, que os intermediários financeiros são supervisionados e que existem mecanismos para proteger os seus direitos.
Neste domínio, a regulação assume uma importância central. A CMC tem precisamente como missão assegurar a integridade, transparência e desenvolvimento sustentável do mercado, bem como promover a confiança dos investidores.
A necessidade de reforçar a confiança torna-se ainda mais evidente à medida que o mercado se abre a pequenos investidores. Um investidor institucional dispõe, normalmente, de equipas especializadas, analistas e recursos para avaliar uma oportunidade. O pequeno investidor pode não dispor dessas ferramentas, logo encontra-se mais vulnerável.
Por isso, democratizar o mercado significa também democratizar a informação.
A informação deve ser clara, acessível e compreensível. O investidor não deve depender exclusivamente de linguagem técnica para compreender onde está a colocar o seu dinheiro.
O terceiro desafio: acessibilidade
Outro obstáculo está relacionado com o acesso.
É necessário perguntar: quão simples é, para um cidadão comum, tornar-se investidor em Angola?
A resposta envolve vários elementos: abertura de conta, identificação do intermediário financeiro, acesso às plataformas, custos de transacção, quantidade mínima de investimento, disponibilidade de informação e facilidade de acompanhamento da carteira.
A digitalização pode desempenhar um papel decisivo neste processo. Quanto mais simples, seguro e transparente for o acesso aos serviços de investimento, maior será o potencial de participação de novos investidores.
Neste sentido, o desenvolvimento de plataformas digitais pode ajudar a reduzir barreiras geográficas e administrativas. Mas a tecnologia, por si só, não resolve o problema. Uma plataforma sofisticada utilizada por pessoas que não compreendem os instrumentos disponíveis pode aumentar o acesso sem necessariamente aumentar a inclusão financeira efectiva.
O objectivo deve ser, portanto, combinar acessibilidade digital com literacia financeira.
O quarto desafio: profundidade e liquidez do mercado
Existe ainda um desafio estrutural: a profundidade do próprio mercado.
Um mercado de capitais democratizado necessita de uma oferta diversificada de instrumentos e de um número suficientemente elevado de participantes. Quanto maior for a diversidade de empresas, sectores e instrumentos disponíveis, maiores serão as possibilidades de diversificação para o investidor.
Os dados de 2025 mostram simultaneamente progresso e limitações. O montante negociado na BODIVA atingiu 5,725 biliões de kwanzas, mas registou uma redução de 25% face a 2024. No mercado de acções, contudo, houve um aumento superior a 440%, impulsionado, entre outros factores, pelos desenvolvimentos associados à admissão das acções do BFA.
O mesmo dado permite perceber uma questão importante: o mercado está a crescer, mas ainda existe uma forte concentração em determinados segmentos e operações.
A democratização exigirá, por isso, mais empresas cotadas, mais emissões, maior diversidade de produtos e um mercado secundário suficientemente líquido para permitir que o investidor entre e saia das suas posições de forma eficiente.
O que significa, afinal, democratizar o mercado de capitais?
A Democratização do mercado de capitais não significa simplesmente aumentar o número de investidores registados, significa construir um mercado no qual diferentes segmentos da sociedade possam participar de forma segura, informada e proporcional à sua capacidade financeira.
Significa permitir que um jovem profissional, um pequeno empresário, um funcionário público ou uma família de rendimento médio possa compreender os instrumentos disponíveis, avaliar os riscos e realizar investimentos compatíveis com os seus objectivos.
Significa também criar produtos financeiros adequados a diferentes perfis de risco e horizontes temporais. Nesse sentido, Angola precisa de avançar simultaneamente em quatro frentes: educação, confiança, acessibilidade e diversificação.
A educação permite compreender. A confiança permite participar. A acessibilidade permite entrar. A diversificação permite permanecer.
Angola está a atravessar uma fase particularmente importante de desenvolvimento do seu mercado de capitais. A evolução recente demonstra que existe procura, capacidade institucional e potencial para ampliar significativamente a participação dos investidores.
A experiência da OPV do BFA e da UNITAL constituem uma demonstração relevante desse potencial: milhares de investidores participaram em operações de grande dimensão e contribuíram para aproximar o mercado de capitais da sociedade. Ao mesmo tempo, a expansão do número de transacções e o crescimento do mercado de acções demonstram que o ecossistema financeiro angolano está a ganhar dinamismo.
Mas o verdadeiro teste da democratização será saber se esta participação consegue tornar-se estrutural e permanente.O desafio de Angola não consiste apenas em criar mais produtos financeiros. Consiste em criar investidores.
Entre o cidadão que guarda o seu dinheiro e aquele que investe existe uma ponte construída por conhecimento, confiança, acesso e oportunidades. Cabe às instituições do mercado, aos intermediários financeiros, às universidades, ao Estado e à sociedade construir essa ponte.
No fundo, democratizar o mercado de capitais é transformar a relação do cidadão com o seu próprio dinheiro: passar de uma lógica centrada apenas em guardar para uma lógica baseada também em investir, participar e construir património.
Por isso, a pergunta que deve orientar a próxima etapa do mercado de capitais angolano talvez não seja apenas “quantos investidores temos?”, mas sim:
quantos dos milhões de aforradores existentes em Angola conseguimos transformar em investidores informados e participantes activos no desenvolvimento da economia?
É nessa passagemdo aforrador ao investidorque poderá estar uma das próximas grandes fronteiras do desenvolvimento financeiro de Angola.